Depois de virar patinho feio, Brasil volta aos poucos a atrair estrangeiros

País perdeu espaço para outros emergentes, dizem gestores de recursos americanos e europeus, que agora veem sinais de retorno, principalmente para private equity

Os investidores norte-americanos pararam de atender os telefonemas do gestor brasileiro João Saldanha, sócio da GTI Investimentos, há cerca de cinco meses. “Quando dizíamos que éramos do Brasil, não nos atendiam mais. O País virou o patinho feio dos emergentes desde maio, quando a nossa bolsa começou a cair com mais força,” afirma. A gestora, que tem um terço de seus recursos investidos vindos da Europa, tentava atrair clientes norte-americanos. Mas o momento, diz ele, não era o melhor para isso.

De queridinho dos investidores interessados nos países emergentes há dois anos, Brasil passou a excluído nos últimos meses, com a economia patinando e o governo colocando a mão em setores importantes – o que gera incerteza em quem investe dinheiro no País. Para gestores de fundos de investimentos no exterior, como Saldanha, o Brasil só não saiu de moda de uma vez por todas porque, no exterior, costuma-se pensar mais em longo prazo. Além disso, Copa do Mundo, Jogos Olímpicos e o esperanças com o mercado doméstico mantiveram a brasa de acesa.

Entretanto, Saldanha acredita que a imagem brasileira no exterior tem se recuperado desde o final de agosto, e as medidas macroprudenciais tomadas pelo governo desde o ano passado ajudam. “Agora, já estamos vendo resultado de ações do governo e o País está ganhando atenção novamente”, acrescenta o executivo, que participava do 2º Fórum Anual de Fundos Offshore, organizado pelo grupo DMS, em São Paulo.

Ainda assim, a Bolsa de Valores guarda sequelas da perda de espaço para outros países, como Colômbia, Peru, China e, principalmente, México. Enquanto a Bovespa enxugou em 2012 – com que da de 17,4% no valor total de capitalização de mercado janeiro a maio, segundo a Federação de Bolsas Globais (WFE, na sigla em inglês) -, a bolsa mexicana inflou – com um aumento de 5% no mesmo período. “É muito provável que investidores tenham ido daqui para lá,” diz Saldanha.

Colômbia e Peru aproveitaram a hibernação da economia brasileira e também abocanharam um pouco dos recursos que poderiam ter o Brasil como destino, diz Daniel Rummery, presidente da Latam Capital Partners, que levanta recursos de investidores estrangeiros para investir no Brasil. “Antes estava mais fácil conseguir arrecadar recursos para o Brasil. Neste ano, vi alguns investidores irem para Colômbia e Peru, por exemplo, dizendo que os preços estavam atrativos e que nestes locais a burocracia e as políticas governamentais são mais parecidas com o que se tem nos EUA,” afirma.

Leia mais: Antes ‘óbvia’, Vale perde apelo junto a investidores

No investimento produtivo, o ingresso de capitais no Brasil caiu 2% no ano até agosto, em relação ao mesmo período ano passado. Em 2011, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) somou US$ 44,1 bilhões no período. Nos oito primeiros meses deste ano, o País recebeu US$ 43,2 bilhões, segundo o Banco Central. Apesar de a queda ter sido pouco expressiva, o mais natural teria sido um aumento.

“A performance da economia brasileira está desapontando os estrangeiros neste ano. O enfraquecimento do PIB (Produto Interno Bruto) foi maior do que esperávamos, mesmo em um ambiente econômico mais desafiador. E o cenário macroeconômico se deteriorou mais do que qualquer outra economia latino-americana,” diz Slim Ferriani, presidente da empresa inglesa Advance Emerging Capital, que administra fundos de investimento em mercados emergentes e de fronteira.

Além da redução do crescimento brasileiro – a economia cresceu apenas 0,1% no primeiro trimestre e 0,4% de abril a junho -, as intervenções do governo na economia contribuíram para reduzir o apetite estrangeiro dada a aversão do mercado a surpresas, que não foram poucas. Desde o ano passado, a presidenta Dilma Rousseff aumentou os impostos para produtos importados, reduziu para a linha branca e a linha marrom, decidiu abrir concessões em infraestrutura, cortou preços de energia, e pressionou bancos a reduzir os juros. Antes disso, mexeu também em regras de posses de terrenos por estrangeiro, o que, segundo Rummery, levou um grupo de norte-americanos a cancelar investimento de R$ 500 milhões em infraestrutura e desenvolvimento no Piauí. “Diante da mudança, eles decidiram olhar para outros mercados emergentes,” afirma.

Veja mais: Estrangeiros devem trazer US$ 60 bilhões para agronegócio

O Brasil não sentiu baque maior, na visão dos gestores, porque os investidores estrangeiros, em geral, têm visão de longo prazo. “Investidores mais líquidos reduziram a exposição no País, mas nos casos de fundos de pensão, por exemplo, muitas vezes os conselheiros se encontram apenas duas vezes ao ano e não costumam tirar os recursos se acreditam na moeda do país. E agora o real está num patamar confortável em torno de R$ 2,” diz Rummery.

Além disso, muitos fundos que aplicam em mercados emergentes não têm uma gestão ativa de suas carteiras. O maior do mundo, chamado “Vanguard Emerging Markets”, apenas segue à risca o principal índice para este mercado, que é o MSCI Emerging Markets Index, com 78 ações brasileiras. A participação do Brasil na composição, atualmente, é de 13%, exatamente a mesma do fundo.

Mesmo aqueles que possuem uma gestão mais atuante ainda não costumam variar muito quando se fala em Brasil. Segundo levantamento do iG com os dez maiores, houve pouca variação de ativos ao longo dos últimos meses nas apostas em títulos do governo brasileiro e ações de empresas. Os papéis mais presentes nas carteiras – assim como era há dois anos – continuam sendo Petrobras, Vale, Itaú Unibanco e Bradesco, Lojas Renner, Cielo, Itausa, Amil, Ambev, Gerdau, Banco do Brasil, Ultrapar e Souza Cruz.

Os ainda altos juros brasileiros também ajudaram a manter os fundos mistos. “Apesar das reduções recentes, ainda temos uma 7,5% ao ano no Brasil, o que é muito acima do que vemos na Europa,” afirma Mark Browne, do escritório de advocacia irlandês Mason Hayes Curran, que assessora investidores europeus. Segundo ele, o governo de seu país recentemente mudou regras para permitir uma maior exposição dos fundos em títulos do Tesouro brasileiro.

Retorno

O que está acontecendo de diferente na volta dos investidores, na visão dos gestores, é o aumento dos recursos para investimentos em participações em empresas (private equity) – que no ano passado somou US$ 7 bilhões -, superior ao aumento da procura por ações de empresas listadas na bolsa. Entre os setores preferidos, estão o imobiliário, de consumo e aqueles ligados com eventos esportivos que o País sediará, segundo a opinião de diversos gestores presentes no 2º Seminário de Fundos Offshore, organizado pela DMS.

Na opinião de Otávio Vieira, da gestora de recursos Fides Asset Management, o maior interesse estrangeiro no Brasil nos próximos meses são empresas médias do setor imobiliário, que atuem tanto em segmento residencial como escritórios, principalmente em cidades médias, como Campinas e Belo Horizonte. Daniel Rummery acrescenta que tem conversado com investidores mais interessados em companhias médias do setor de consumo, com potencial de crescimento. “Ainda que não seja o mesmo apetite de 2010, ainda vejo um interesse europeu no Brasil, principalmente em setores envolvidos com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos,” diz Mark Browne.

Source: ig