Onda de dúvidas

1/7/2013

Uma gota em um mar já revolto. A onda de protestos que tomou as principais cidades brasileiras nas últimas semanas deixou os investidores externos um pouco mais confusos sobre o futuro do Brasil. Os mais otimistas consideraram que os impactos podem ser positivos, principalmente no longo prazo, com melhorias na educação e a esperada reforma política. Os mais pessimistas pesaram o risco de uma resposta populista, que poderia ocasionar, por exemplo, um reforço na inflação. O fato é que, diante de imagens mais violentas veiculadas na imprensa internacional, investidores estrangeiros procuraram especialistas e gestores de recursos no Brasil e até mesmo, em uma inversão de papéis, entraram em contato com jornalistas em busca de uma luz.

Os protestos foram uma surpresa e chegaram num momento ruim para o país, depois da crescente decepção de investidores com a política econômica dos dois últimos anos, afirma um gestor europeu que preferiu não ser identificado. Responsável pelo time de alocação de recursos em países emergentes há 16 anos, inclusive Brasil, ele citou imagens fortes de violência transmitidas nas televisões estrangeiras. A primeira dúvida, diz, foi sobre a sustentabilidade do governo. A segunda, a respeito de possíveis mudanças de política econômica. “Vamos testemunhar uma volta para trás, com política populista e inflação alta?”, questiona. Apesar de considerar difícil uma solução rápida e decisiva para as manifestações, o investidor mantém a visão construtiva para o longo prazo.

Para Will Landers, diretor da BlackRock responsável pela gestão dos fundos de ações para a América Latina, a onda de protestos traz mais incertezas, mas tende a assustar especialmente o investidor global, que não acompanha de perto a região. Esse, contudo, já está fora do mercado brasileiro, afirma. “O Brasil é grande, importante para a região, mas se o investidor global enxerga algum risco ele sai”, diz. Hoje, nas carteiras globais, o Brasil está com um peso abaixo de seus índices de referência, conta.

O problema de credibilidade do país, segundo ele, começou com a capitalização da Petrobras, em 2010, acentuando-se no ano passado com o maior intervencionismo do governo, como no setor elétrico. Além disso, o país não vem entregando crescimento e há avanços a fazer em termos de políticas fiscal e monetária. “O nível de incertezas cresceu e isso explica a performance pior do mercado brasileiro [em relação a outros emergentes]”, diz.

O Ibovespa acumula queda superior a 22% no ano, sendo 11,3% só em junho. Parte da queda é explicada pela saída de investimento estrangeiro, desencadeada pela sinalização de redução dos estímulos à economia americana. Até o dia 26, o saldo em junho estava negativo em R$ 5,4 bilhões. No ano, ainda é positivo em R$ 2,9 bilhões.

Para Landers, que é gestor dedicado à América Latina, o Brasil concentra suas maiores apostas, uma vez que o México perdeu atratividade por também estar com crescimento menor do que o esperado e relativamente mais caro. “Mas o nível de convicção é baixo”, pondera. O Brasil parece barato, diz, mas sob premissas que hoje são difíceis de serem estimadas, como câmbio, juro e PIB.

Gestores locais que administram recursos de estrangeiros têm sido questionados sobre os possíveis reflexos das manifestações. Mas por ora não passa disso. “Não estamos experimentando fluxos de resgate por parte dos nossos clientes estrangeiros, mas sentimos uma clara elevação no nível de preocupação, principalmente após a forte correção dos mercados ocorrida neste mês”, diz Marcelo Karvelis, sócio responsável pelo relacionamento com investidores da gestora Claritas, associada ao americano Principal Financial Group. Antes mesmo das manifestações, diz, já havia desconforto com a postura do governo, com o real valorizado e questões fiscais. Com bastante visibilidade internacional, considera Karvelis, os protestos chamaram a atenção para os problemas do país.

Outro gestor brasileiro, que preferiu não ser identificado, afirma ter recebido uma série de ligações dos investidores estrangeiros, com tom mais de curiosidade do que de preocupação. As dúvidas eram sobre a escala do protesto, suas lideranças, pleitos e se as cenas de violência eram generalizadas.

Daniel Rummery, principal executivo da Latam Capital Partners, notou a inquietação de investidores estrangeiros em relação ao contexto brasileiro nas últimas semanas. O inglês, que fica baseado em São Paulo desde 2012 e tem como foco o Brasil, atende principalmente fundos de pensão e gestores de fortunas europeus e americanos.

O executivo estava em Nova York há duas semanas e sentiu o incômodo de investidores com relação aos acontecimentos recentes no Brasil, agravado pela falta de compreensão do que realmente se passava. E isso, diz ele, tem impacto no curto prazo sobre o país, sob o ponto de vista de aplicadores mais cautelosos. “Investidores ainda acreditam no Brasil, mas não estão confortáveis para fazer novos investimentos nesse momento. Com as cenas vistas nas redes internacionais, a situação parece muito pior”, diz Rummery.

Segundo ele, fundos de pensão não querem investir no país agora, pois não estão dispostos a correr riscos. Por outro lado, investidores mais agressivos, com destaque para “family offices”, enxergam boas oportunidades do mercado local. “Pensando no longo prazo, o Brasil está voltando a ficar barato na comparação com o resto do mundo. Investidores seguem comprometidos com o país”, diz o executivo, que viaja para a Europa na próxima semana para falar das oportunidades no país e também aproveitará para acalmar os ânimos.

Na visão da equipe de análise do Bank of America Merrill Lynch, a maior parte das mudanças tende a ter um impacto positivo sobre o país no longo prazo, principalmente por conta de potenciais melhorias em educação, discussões sobre o tema corrupção e maior força para uma reforma política. Em relatório, os analistas Felipe Hirai, David Beker e Marina Valle dizem que os protestos perderam força nos últimos dias, em parte pela rápida reação do governo. “Em uma questão de dias, o Congresso brasileiro votou um número de questões importantes, aumentos de tarifas de transporte público foram cancelados e a presidente Dilma Rousseff propôs alterações nos sistemas de saúde, educação e político”, afirmam.

Para a instituição, o fato de Dilma ter entrado em ação realizando encontros com outras autoridades e grupos envolvidos nos protestos melhorou a percepção de sua administração. O banco, contudo, avalia que os protestos criaram maior incerteza sobre os resultados eleitorais de 2014. “Pode ser muito cedo para dizer, mas, como a popularidade da Dilma caiu, sua reeleição poderá estar em risco”, diz o BofA.

Para o banco, a perda do poder de compra foi provavelmente um dos gatilhos econômicos para os protestos. “Até esse momento, os aumentos salariais mais que compensavam a alta da inflação, mas esse cenário mudou, já que não há mais espaço para aumentos reais de salários”, afirma.

Outro gestor estrangeiro de recursos, que passou a observar o Brasil recentemente em busca de oportunidades, considera que os protestos serviram para os investidores enxergarem que o Brasil não tinha mudado tanto quanto eles imaginavam. A corrupção, a pobreza e a falta de oportunidades para as pessoas de renda mais baixa permanecem, afirma, o que indica uma economia fraca, e não robusta como poderiam imaginar. O investidor ressalva que existem alguns bons negócios no Brasil e que agora, com investidores tão assustados, esse pode ser um momento mais interessante para olhar para os ativos do que foi recentemente.

Para um outro gestor estrangeiro, é bom lembrar que investidores internacionais como um grupo, são raramente bons em entender riscos, já que consideram o passado recente em vez de pensar racionalmente sobre cada questão.

Source: fortunatoinvest